No Brasil, tenho a impressão que jornalistas de veículos tradicionais não se ajudam tanto quanto poderiam. “São concorrentes, Pedro, normal”, você pode dizer. Mas trabalhar em uma empresa jornalística nos EUA me fez perceber que a forma extremamente competitiva que tratamos o jornalismo não precisa ser o normal. Não hoje.

A reportagem de capa do New York Times hoje foi feita por dois colegas do Marshall Project, onde trabalho. Somos uma ONG relativamente pequena que cobre justiça criminal. E para aumentar o impacto do que fazemos, co-produzimos algumas das reportagens especiais com outros veículos grandes. No caso específico, desde setembro do ano passado Alysia Santo e Eli Hager estão investigando a indústria de transporte de presos, e desde abril a reportagem está sendo editada e checada pela equipe do Times. É um esforço coletivo, que envolveu bastante gente.

Parênteses sobre a reportagem, título “Por dentro do letal mundo do transporte privado de presos”. Na tentativa de cortar “despesas”, vários departamentos de polícia dos EUA1 recentemente terceirizaram o transporte de presos para empresas que não têm a menor condição de prestar o serviço — e operam em um mercado quase que totalmente desregulado, o que é um perigo. O que acontece é que pessoas que cometeram pequenos delitos são colocadas juntos de homicidas fugitivos, e transportadas algemadas e com os tornozelos acorrentados em vans sem segurança ventilação por, às vezes, mais de mil quilômetros. A investigação do Marshall descobriu que dentro dessas vans aconteceram dezenas de mortes, fugas e violência sexual entre os presos. As cenas de abuso e negligência são descritas em detalhe na reportagem — e outras histórias escabrosas ficaram de fora. Enfim, vá ler. É um primor de jornalismo investigativo. Fecha parênteses.

A ideia de uma ONG de reportagem não apenas publicar o seu material em um veículo da “grande mídia”, mas o fazer em colaboração, já é estranha o suficiente no Brasil2. Mas o pior (ou melhor, na verdade) é o que aconteceu antes e logo depois da reportagem.

O Marshall Project começou a investigar a história graças à dica de um outro jornalista do Atlanta Journal Constitution. Eles fizeram uma pequena matéria sobre o mesmo assunto, achavam que era algo nacional, e sugeriram que a gente fosse atrás, por ter mais tempo e recursos. Para mim, um repórter com uma história bem importante na mão só pode entregá-la de bandeja se colocar a função social do jornalismo acima de coisas como a vaidade do furo.

Obviamente precisaríamos dar algo de volta, além da matéria. Então publicamos junto da reportagem o que eles chamam aqui de “receita de reportagem”. O objetivo é ajudar a vida dos jornalistas que quiserem “localizar” a matéria, apurando o que seria um assunto nacional na cidade ou estado.

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Os repórteres responsáveis pela investigação colocaram os seis passos para apurar as informações nos estados atendidos pelas empresas investigadas, e se colocaram à disposição de quem precisasse de ajuda. Já apareceram emails.

O MuckRock, uma outra ONG de jornalismo investigativo, foi ainda mais longe, e já solicitou informações sobre transporte de presos às secretarias penitenciárias de todos os estados dos EUA. Tão logo os governos prestem contas, o MuckRock avisa ao repórter interessado.

Muitas vezes a sanha investigativa dos jornalistas brasileiros esbarra na burocracia de conseguir novas informações. O MuckRock tenta tirar isso da frente — basta preencher um formulário bastante simples no site deles que eles cuidam de preencher a papelada oficial para os repórteres.

Isso é apenas um exemplo, mas no meu ano e meio aqui nos EUA vi outros vários. Eu participo de um grupo no Slack de editores de diferentes veículos, e trocamos informações, boas práticas e até números internos sem muito problema. Quando algum jornal faz uma grande investigação, é comum ter um evento em uma universidade para os repórteres e editores explicarem o processo. O BuzzFeed News mantém no Github um banco de dados atualizado com os casos de Zika registrados nos EUA para fácil acesso de outros veículos; o Washington Post faz o mesmo com os dados de mortes provocadas pela polícia. Todo mundo usa um pouco desses recursos e dá o devido crédito. Como o New York Times, que indica posts de outros sites no seu app oficial, o NYT Now.

Posso não estar suficientemente por dentro da realidade das redações, mas não vejo nada parecido com isso hoje por aí nos veículos mais tradicionais (que, francamente, são os que produzem as notícias no fim das contas). É claro que, graças às redes sociais, é mais comum que jornalistas recomendem e cumprimentem o trabalho uns dos outros. Mas a cultura de exclusividade e competição, no nível institucional, ainda é muito forte, me parece. O máximo de colaboração que acontece é um “diz revista” em uma chamada. É pouco. Com recursos escassos que temos no Brasil, precisamos de mais esforços conjuntos.

Há quase 10 anos Jeff Jarvis escreveuDo what you do best and link to the rest”. Creio que essa lógica é cada vez mais necessária, até economicamente. Não há porque escrever a mesmíssima matéria que o coleguinha só porque ele deu um pouco antes. Ou, pior, não há porque copiá-la inteira — como é ridiculamente comum no Brasil (e, não, dar o link não deixa a prática menos desculpável).

O público comum, especialmente em tempos de Facebook como gatekeeper, blogs copiadores e naofo.de, não vê a o valor da exclusividade de maneira tão clara quanto os jornalistas — ou os editores. Nesse mundo, especialização, colaboração, generosidade e crédito são chave.

  1. Nos EUA as polícias são municipais, e não estaduais, além de serem unificadas (não há separação de civil e ‘militar’). Nos municípios menores, o xerife é eleito por voto direto.

  2. Isso também tem a ver com o fato de que boa parte das ONGs que fazem jornalismo no Brasil têm uma certa agenda. Repórter Brasil, Greenpeace e Transparência Brasil fazem jornalismo de qualidade de quando em vez, mas têm uma ”causa“. A Agência Pública e a Ponte, apesar de terem um trabalho importante, também são menos apartidárias que veículos grandes gostariam — e quando estes usam o material normalmente ele já vem pronto. Mas essa é outra discussão.